Em meio à pandemia, agronegócio deve aumentar participação no PIB do ES
Com outros setores sofrendo mais ativamente os impactos do coronavírus, a cadeia produtiva da agricultura e da pecuária ganhou ainda mais espaço

O agronegócio capixaba vai ter um papel importante para a geração de riquezas do Espírito Santo neste ano. Como a indústria e os setores de comércio e serviços devem fechar 2020 com uma forte queda, a participação da cadeia produtiva da agricultura e da pecuária no Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, que chegou ao Estado em março deste ano, o segmento tem se reinventado e, com isso, ganhado mais espaço. De acordo com especialistas ouvidos por A Gazeta, o agronegócio vai ser o único setor econômico a crescer no Espírito Santo este ano.

Os produtos que devem ser os principais responsáveis por essa alavancagem são celulose, carnes, ovos, café, gengibre, pimenta-do-reino e especiarias. Além dessas produções, as exportações devem contribuir para este cenário.

Segundo os especialistas, o agronegócio é um segmento que permaneceu em crescimento. Em meio a esse cenário, ele será o responsável por não deixar o PIB encolher ainda mais do que o que vem sendo traçado pelos centros de pesquisa.

Projeção do banco Santander aponta para uma queda de 2,6% no PIB do Espírito Santo em 2020 devido à pandemia da Covid-19. Se confirmada esta retração, ela será menor do que a esperada para o PIB nacional, estimada em -6,4% pela mesma instituição bancária. Para 2021, é projetada uma alta de 4,4% no país e de 3,2% para o Estado.

Já a Tendências Consultoria Integrada aponta uma projeção um pouco mais pessimista. No início do ano, a empresa esboçava que o Estado teria um crescimento no PIB de 1,3%. Já em maio, passou a estimar que a economia vai vai retrair 4,3%, desempenho pior do que o projetado para o Brasil, de -4,1%.

Quando se fala em riquezas geradas pelo agronegócio é preciso primeiro estabelecer o que isso representa. Enio Bergoli, engenheiro agrônomo do Incaper e especialista em socioeconomia, explica que existem três conceitos básicos de cálculo: o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBPA), o PIB da agropecuária/IBGE e o PIB do agronegócio.

O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBPA) considera, basicamente, o que vai ser produzido dentro da porteira e o preço médio do produto. Ou seja, só são calculados safra agrícola e produção animal.

12% DE CRESCIMENTO VALOR BRUTO DA PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA EM 2020

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estima que, neste ano, em comparação a 2019, o país terá um crescimento de 12,4% do VBPA. Com isso, a agricultura e a pecuária terão receitas de R$ 740,3 bilhões. A projeção leva em consideração 28 cadeias produtivas, sendo 23 da agricultura e cinco da pecuária. O estudo não traz o VBPA em nível estadual, mas é possível fazer uma estimativa para o Espírito Santo.

 "Dos itens que ele leva em conta, temos os cafés arábica e conilon, a banana e a pecuária fortes no Espírito Santo. Porém, também precisamos levar em consideração outros produtos de que somos grandes produtores e exportadores e que o estudo não contempla. Esse é o caso do mamão, do gengibre e da pimenta-do-reino. Dessa forma, a estimativa é que o VBPA do Estado deva crescer na mesma proporção que o do país, na faixa de 12%", conta Enio Bergoli Engenheiro agrônomo do Incaper e especialista em socioeconomia

O segundo modelo é o PIB da agropecuária, usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse molde, o Produto Interno Bruto é dividido em três grandes setores: agropecuária, serviços/comércio e indústria. Nesse conceito a agricultura e a pecuária estão isoladas da agroindústria, por exemplo.

De acordo com Bergoli, dentro dessa lógica, a agropecuária representa menos de 5% do total do PIB nacional. Já serviços e comércio (75%) e indústria (20%) ficam com as maiores parcelas de contribuição. "Mesmo dentro desse conceito, no primeiro trimestre de 2020 a agropecuária teve resultado positivo, em comparação com 2019, e os demais setores caíram. O agro representa tão pouco, nesse caso, que mesmo subindo não faz com que o PIB tenha um resultado muito melhor", aponta.

Já o terceiro conceito leva em consideração o PIB Agronegócio, calculado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP) em parceria com a CNA. Nesse caso, soma-se a agricultura e a pecuária aos demais segmentos da cadeia produtiva, como a agroindústria e a produção de insumos para produção.

No primeiro quadrimestre de 2020, o PIB Agronegócio teve crescimento de 3,78% no país, distribuídos em quatro segmentos: primário, produção dentro da porteira (8,22%); agrosserviços (3,98%), produção de insumos (0,97%) e agroindústria (0,44%).

Bergoli aponta que, quando se considera essa lógica maior do agro, a sua participação no PIB aumenta muito. Além disso, ele destaca que a tendência é que o agronegócio não tenha crescimento negativo em 2020, mas sim positivo. "Quando começamos a trabalhar o agronegócio como sendo a agricultura e seus associados, a participação é muito maior e sai daquele menos de 5% (PIB/IBGE) para (uma participação) de 20% a 21% no Brasil e de 22% a 23% no Espírito Santo. O crescimento do PIB do agronegócio capixaba tende a seguir o mesmo crescimento nacional e ser uma grande alavanca para fazer a recuperação da economia", pontua.

O especialista conclui que independentemente das bases de cálculos (VBPA, PIB/IBE e PIB do Agronegócio) o agro deve ser o único setor a ter crescimento tanto no Brasil quanto no Espírito Santo. "Obviamente que o mundo precisa de alimentos e há uma demanda mundial. As pessoas não deixam de comer de uma hora para outra. Por isso, o agro é um segmento que permaneceu em crescimento mesmo na pandemia", comenta Bergoli.

EXPORTAÇÕES DEVEM AJUDAR NO RESULTADO DO AGRONEGÓCIO

A balança comercial do Estado e do país só deve ter saldo positivo porque o agronegócio exporta muito mais do que importa. A pesquisadora da área de PIB do Cepea/USP Nicole Rennó explica que os produtos que estão se saindo bem no agronegócio, geralmente, são os de setores que exportam.

 "Os produtos vêm sendo favorecidos pelo dólar, que está em um patamar médio acima do apresentado no ano passado. Mas, nesse mesmo passo, os produtos que dependem da venda do mercado interno estão passando dificuldade, principalmente aqueles de que as pessoas podem abrir mão, como os de maior valor agregado" Rennó ainda explica que, dentro do agronegócio, a produção de grãos, entre eles o café, vai ser recorde no país "Temos produção em alta e preços mais elevados na agricultura. Já na pecuária os preços estão excelentes desde meados de 2019. O valor da proteína animal (bovino, suíno e aves) está em alta, principalmente, porque a demanda externa está aquecida", diz Nicole Rennó Pesquisadora da área de PIB do Cepea/USP. 

O coordenador de Estudos Econômicos do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), Antônio Ricardo Freislebem da Rocha, lembra que o Estado é "refém" do mercado externo. "Uma coisa é você ter uma demanda aquecida e não conseguir chegar lá por causa do transporte. Outra é ter um cenário meio nebuloso do que ainda temos pela frente".

"Os produtos da agricultura e da agropecuária têm apresentado uma contribuição importante para o nosso PIB desde 2018 (2,4%), ano em que teve uma participação muito grande. Em 2019, fechamos o ano, no geral, em zero porcento de crescimento. O agronegócio é o que tem segurado um pouco, já que indústria e serviços têm apresentado queda", Antônio Ricardo Freislebem da Rocha Coordenador de Estudos Econômicos do Instituto Jones dos Santos Neves.

De acordo com o IJSN, as exportações do agronegócio capixaba alcançaram US$ 302,7 milhões no primeiro trimestre de 2020, último dado disponível. O volume foi 4,4% inferior ao trimestre anterior. O resultado foi superior ao das exportações em geral, que retraiu 12,5% no mesmo período. Os principais produtos exportados no primeiro trimestre do ano foram celulose (46,9%), café em grão (33,5%) e pimenta (8,3%). Com isso, a participação das exportações do agronegócio no total exportado pelo Estado no trimestre atingiu 20,6% contra 18,8% do trimestre anterior.

A pesquisadora da área de PIB do Cepea Nicole Rennó ressalta que o café, por enquanto, não sentiu o impacto negativo de demanda causada pela pandemia. De acordo com ela, em um primeiro momento, alguns países que exportam café tiveram dificuldades logísticas, o que não ocorreu no Brasil. "Alguns países, por causa das restrições da pandemia, começaram a consumir os estoques internos. No geral, o café não tem sido prejudicado e não se espera que tenha uma queda demanda", explica.

O preço da saca do café melhorou nos últimos meses. Desde 2016, o valor médio da saca vem caindo, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq). Em maio do ano passado, o preço médio da saca de conilon chegou a R$ 279,44. Já em novembro de 2016, a saca do conilon chegou a ser comercializada a R$ 521,31, preço que ainda não se repetiu.

Com a alta da moeda americana e a redução dos estoques de café das safras anteriores, o preço médio da saca de conilon em junho deste ano foi de R$ 338,97. Na primeira semana de julho ela está sendo comercializada a R$ 345,95. Mesmo sofrendo algumas variações no preço da saca à vista ao longo de 2020, o valor continua bem acima do pago em 2019.

A pesquisadora da área de PIB do Cepea Nicole Rennó ressalta que o café, por enquanto, não sentiu o impacto negativo de demanda causada pela pandemia. De acordo com ela, em um primeiro momento, alguns países que exportam café tiveram dificuldades logísticas, o que não ocorreu no Brasil. "Alguns países, por causa das restrições da pandemia, começaram a consumir os estoques internos. No geral, o café não tem sido prejudicado e não se espera que tenha uma queda demanda", explica.

O secretário de Agricultura do Estado, Paulo Foletto, ressalta que o setor do agronegócio do Espírito Santo é muito grande devido à produção de celulose e ao café. "O café tem comércio independentemente da pandemia. No processo de comercialização, ele continua tendo o maior valor bruto da produção agrícola", afirma.

De acordo com a análise conjuntural do Cepea, a maior parte dos produtores do Espírito Santo se concentrou nas entregas já programadas, fechadas em meses anteriores. Dessa forma, eles só foram ao mercado físico quando havia necessidade de caixa para os trabalhos de colheita ou em dias de alta nas cotações. Com isso, um volume significativo da safra 2020/21 já foi comercializado. Até o final de junho, cerca de 20 a 30% do volume colhido no Espírito Santo havia sido negociado.

30% DA SAFRA 2020/21 FOI COMERCIALIZADA

O presidente da Federação da Agricultura (Faes), Júlio Rocha, ressalta que, infelizmente, a safra que foi anunciada (766,5 mil toneladas segundo o IBGE) não vai ser constatada. "Existe uma perda considerável. Variando de município, vai até ser acentuada. Não vamos registrar a colheita que estávamos imaginando. Pelas informações que recebemos, existem localidades que vão perder até 40% da safra, como Jaguaré, Rio Bananal e Linhares - por causa do atraso da colheita e da falta de mão de obra".

De acordo com o Cepea, apesar das chuvas no Espírito Santo, o clima mais frio atrapalhou um pouco o andamento dos trabalhos da safra 2020/21. Com a temperatura mais amena, ventos durante a florada, debilidade das plantas devido à última safra e falta de aplicação de adubo os grãos demoraram mais para chegar ao ponto de colheita.

Até o final de junho, o volume colhido era de 60% a 70% da safra total esperada. A expectativa é que as atividades sejam finalizadas entre a metade e o final de julho. Na nota técnica, o Cepea ressaltou que "apesar da qualidade satisfatória, a safra apresentou quebra de produção de 20 a 30%".

CONTRAPONTO DO CRESCIMENTO

Apesar de a perspectiva do agronegócio ser positiva, é preciso lembrar que ela não é uniforme. Alguns produtos estão tendo um desempenho mais modesto. Esse é o caso do mamão, do leite, do açúcar e álcool e da seringa. Essas produções estão sendo diretamente impactadas pela retração da demanda do mercado interno e outros efeitos da pandemia do coronavírus.

No caso do setor sucroalcooleiro (derivados da cana-de-açúcar) ainda existe o potencializador que foi a guerra dos preços do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita. Com a gasolina mais barata, o etanol, usado para misturar ao combustível e reduzir o preço, acabou ficando menos usado. Além disso, os estoques de açúcar, outra saída para o setor, continuam elevados.

Fonte: A Gazeta 

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